Séries

Published on abril 20th, 2017 | by Bernão

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13 Reasons Why – Lado B

Cheguei a pensar que não escreveria esse texto, porém algo em mim me obriga. Vamos lá então. Chegamos ao lado B do texto escrito pela nossa querida amiga Mayara Itacaramby que fez o favor de meter o pau na série por mim (motivo pelo qual me segurei em escrever). Como a May já escreveu um bom texto sobre a série, me atentarei a falar das entrelinhas, assunto que mais me convém. Usarei um formato de entrevista para ir direto ao assunto, desse modo, você que é leitor virtual supersônico (produto desse nosso contemporâneo pós-internet) lê só o que te interessa.

(melhor que textão corrido, né?)

Séries, filmes, livros são capazes de provocar suicídio?

Muito tem se falado que a série 13RW poderia conter gatilhos que fariam com que um telespectador se suicidasse… vamos com calma, ok? Primeiro, a ideia de um livro, filme, ou imagem carregar certa verdade/ideia avassaladora capaz de ter impacto tremendo sobre seu leitor é de longa data, existem vários contos e histórias com essa temática. Um beijo enorme para o Lovecraft, para o Chambers e para todos os livros de capa amarela. Pensar que uma obra artística, ideia, ou “verdade” tem esse poder todo é muito simplista. Se de fato essa premissa fosse real, assistir qualquer noticiário que trata da nossa crise política atual seria um atentado contra a vida. O que não é o caso, por mais trágico que seja.

Em geral, a ideia de tirar a própria vida vai se construído no decorrer do tempo, tirando os casos de extrema impulsividade, demora um tempo razoável entre considerar a ideia do suicídio, começar um planejamento e ter coragem de executar. Isso para não falar os casos em que a pessoa se encontra tão depressiva que não tem forças para realizar o ato.

Então o conteúdo das mídias é inofensivo?

Não, muito pelo contrário. Toda expressão artística/midiática tenta passar uma ideia, que muitas vezes faz parte de um discurso, e toda ideia/discurso está muito longe de ser ingênuo, isento e/ou inofensivo. A menos que uma carta de despedida de algum suicida explicite diretamente coisas como “foi quando eu vi 13RW que decidi me matar” ou coisa do gênero, esse material que ínsita ou faz alguma apologia ao suicídio acaba sendo apenas um fator dentre muitos outros fatores que pesa em uma balança sobre as escolhas de como cada um lida com seus sofrimentos. Ou seja, é mais uma gota dentro do cálice fúnebre, se o cálice está prestes a transbordar significa que houveram muitas outras gotas que se acumularam no decorrer da vida. O que tudo indica é que 13 razões/porquês é mais uma gota dentro desse cálice do que uma tentativa de esvazia-lo.

Por quê?

Porque a série vende uma ideia e na verdade trata de outra. A maioria dos filmes/livros e etc trazem uma mensagem que fica nas entrelinhas, que não é explicitada. No caso, se vocês prestarem atenção, não se trata da história de alguém que sofreu, ficou depressiva, procurou tratamento, e melhorou. Pelo contrário! A história parte de alguém que já morreu e que arquiteta um plano a ser executado post mortem! Não é uma história de superação, não é uma história de alguém lidando com uma doença grave, é uma história de VINGANÇA! Exatamente! Uma vingança a ser realizada depois de morta, que culpabiliza os outros pelo seu suicídio. 

O que essa série nos diz então?

Antes de mais nada devemos atentar para o público alvo da série, que é uma juventude norte americana que tem cada vez mais se caracterizado por um niilismo recorrente, uma postura apolítica, de desinteresse, que advém de uma percepção de que não existe futuro, e já que é esse o caso, melhor que tudo se acabe. Que é justamente a postura da protagonista do 13RW, pois ela não pede ajuda por acreditar que ajuda não existe! A única saída é o extermínio de si e seus algozes, mesmo que seja depois de morta. Em outras palavras, é um desserviço para a saúde mental das pessoas.

Mas não seria a série responsável em alertar sobre o tema?

Não! Responsável por isso são os profissionais de saúde e educadores que perceberam a tragédia que é essa narrativa frente aos nossos jovens e estão se posicionando de maneira adequada, dando orientações e trazendo à tona a seriedade do tema. Sem romantismo, com muito pé no chão e preocupação.

A Netflix/mídia deve se responsabilizar?

Sim, com certeza não devemos comprar esse discurso de que é só uma série inofensiva e/ou bem-intencionada. Porque existem muitos outros interesses além de trazer à baila a discussão sobre o suicídio na adolescência. Devemos ter claro que o maior interesse é econômico. A indústria cultural e a mídia querem lucro acima de tudo. Como dito anteriormente, o foco nunca foi ajudar pessoas que sofrem. Pelo contrário, o foco sempre foi explorar o sofrimento alheio e lucrar com isso. É o tipo de coisa que a construção da narrativa nos conta, que a escolha temática nos conta, que a escolha do público nos conta. Não é segredo que a empresa quer ter seu lucro, e uma história polêmica só ajuda. Não vamos ser ingênuos quanto a isso, pois vida não é mercadoria. Se acha que minha fala é tendenciosa, perceba como existem outros filmes que falam sobre suicídio sem provocarem tanto alarde. Por que será que só esse trouxe tanta polêmica?

Quem ganha com isso?

Esse é um aspecto interessante, porque quando falamos da morte de jovens, logo trazemos atenção de muita gente, pois é um tema importante que toca o coração das pessoas. Devemos prestar atenção de como tem gente ganhando com isso. A própria Netflix ganha, pois quanto mais polêmica a série, mais pessoas irão assisti-la, quanto mais gente falando sobre suicídio, sofrimento e depressão, mais as categorias que orbitam o seu redor ganham. Se já fomos informados que o CVV teve o número de atendimentos dobrados, se pergunte o que acontecem com essas pessoas. Não é preciso pensar muito que elas estarão no consultório psiquiátrico/psicológico procurando atendimento. Então as categorias ganham com isso, a indústria farmacêutica ganha com isso, a mídia ganha mais ainda, pois geram outras notícias, entrevistas, vídeos no youtube, clicks em sites/blogs. Em outras palavras, por mais que não acredite que a vida é uma mercadoria, a realidade vem me mostrar o contrário, pois minha categoria está ganhando dinheiro/poder com isso. Veja você, caro leitor, você está aqui no meu site lendo o que tenho a dizer sobre o assunto, o que chama a tenção para patrocinadores, depois vai ficar pensando nisso, vai identificar alguém que precisa de ajuda, vai me indicar para que eu possa atender essa pessoa em meu consultório particular, mas ela vai precisar de remédios então vou indicar um psiquiatra. Então ela melhora, lê essa mesma matéria, se identifica, comenta, compartilha e por aí vai.

Então, prestem atenção em uma coisa que eu sempre falo, “Querem a verdade? Sigam o dinheiro!”. Reparem que os jovens que se suicidam no Japão por excesso de trabalho não têm a mesma repercussão da mídia, mas em contrapartida a baleia azul dá saltos altos! Esses são sintomas da nossa mídia em crise que cada dia que passa troca sua ética por clicks sensacionalistas.

Cada dia que passa é a verdade que agoniza mais e mais em seu leito de morte.

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About the Author

Psicólogo, gosta de RPGs, HQs, Livros de fantasia, filmes, fã de Boas Histórias em Geral, procura ver nisso tudo algo que faça um sentido além da mera diversão. Tarólogo e Piloto de helicóptero nas horas vagas. Odeia Robôs Gigantes acima de tudo !



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