Séries

Published on Abril 14th, 2017 | by Mayara Itacaramby

0

13 Reasons Why – Uma série sobre violência contra a mulher – Lado A

Foi isso mesmo que foi lido! Não, não é sobre bullying. Bullying é o que acontece quando você está às margens do palco na sociedade do espetáculo – ou fora dos padrões estéticos, ou por sua etnia, por sua sexualidade, entre outras razões – e é vítima de violência psicológica e física a todo instante, além de ser humilhado e escorraçado para trás das cortinas. As vítimas de bullying são alvos por existirem, não por terem história A ou B.

E é nesse momento que começo a falar de 13 Reasons Why. Hannah Baker, uma menina dentro dos padrões, se torna alvo de fofocas e maldizeres, que num efeito bola de neve, se vê numa avalanche. De simples boatos e fofocas escolares, tudo vem se tornando mais sério, levando a crimes – assédios e estupro. E sim, ela foi vítima de assédio e de estupro, mas também da violência que é implícita quando se denomina a garota como “fácil” e a coloca numa condição de não-empatia, condição onde ninguém a protegerá ou a defenderá caso ela seja alvo da violência – inclusive sexual. Isso, senhores, é o que série mostra – as consequências da violência contra a mulher por conta do machismo enquanto na adolescência. Quando a menina designada como ‘fácil’ se torna alvo de empreitadas que supostamente ela deveria aceitar, e ninguém se apetece em ajudá-la.

Quando os hormônios e as dúvidas estão a mil, é que se escancaram as feridas pútridas da crueldade do machismo. Primeiro com listas de quem é a mais bonita, depois com o cenário fétido dentre homens que nessa idade querem se provar aos outros assediando ou atacando garotas.

E quanto ao suicídio? Afinal esse foi o ‘hype’ vendido pela netflix. Infelizmente, longe de discutir sobre depressão ou ilustrar que ela tem tratamento e cura, a série traz o desserviço de romantizar os porquês alguém se suicida, e ainda, trazer uma culpabilidade atroz a quem supostamente causou diretamente ou indiretamente a morte da personagem. Personagem que é muito difícil se ter empatia – entendemos sua dor e seu estado de desespero, mas definitivamente senti MUITO mais a dor de seus pais do que a dela. Não conhecemos a Hannah, não sabemos quais livros lê, quais séries assiste ou ainda o que a faz ter prazer na vida – não conseguimos ter empatia com quem não conhecemos. E Hannah é genérica em sua caracterização, talvez para passar um símbolo mais universal mas que implica a meu ver falta de personalidade.

A falta de tato em cenas desnecessárias ou a falta de talento de alguns atores torna a série sofrível em alguns pontos, há ainda gatilhos colocados para se tornar um “motivo” mas que não há ligação direta para com a personagem- como a placa de trânsito e o acidente por conta de um senhor dirigindo com um celular na mão que supostamente se lista como um dos motivos. Assim como Sansa de GoT, há (mais) um estupro pra definir a luta final da personagem e torná-la capaz de realizar algo ou de tomar um ‘rumo’. Infelizmente mais uma vez, a mídia reafirmando o estigma de mulher forte depois de um sofrimento terrível e obviamente, seu fracasso.

Em suma, pode-se dizer que faltou à netflix aprofundamento em todos os assuntos que ela de maneira rasa tenta tocar – drogas (a mãe do Justin), homossexualidade (com a Courtney e Tony), depressão e seu tratamento (não há qualquer indicação de psicólogo ou psiquiatra – porque, crianças, depressão tem tratamento!), ansiedade (que o próprio Clay sente), relação entre pais de filhos, poesia (!)e principalmente sobre bullying – afinal o fotógrafo-stalker era muito mais vítima de bullying que a própria Hannah.

E talvez a única personagem que eu ( também nerd, fora dos padrões, que sobreviveu ao bullying e ao ensino médio) tenha tido uma certa afeição foi a Skye – e não somente por também tirar tarô. Mas por ser uma mulher que vive às margens. O próprio Clay, figura de bom moço nerd perdedor, teve de perder alguém precioso para dar valor a uma garota que esteve sempre ao seu lado, também vítima das mesmas humilhações e de igual ou maior sofrimento que o dele. Triste, não?

Entretanto, real. A série acerta em trazer a discussão à tona – de violência, da dificuldade do adolescente em procurar ajuda, de traumas, de suicídio e principalmente de falta de tratamento.  Porém, fica de ‘recuperação’ em se aprofundar ou até em apenas ilustrar para o adolescente que há vida após depressão e principalmente, vida após ensino médio.

Nota: 5,5 Recuperação netflix. Sorry.


Confira o texto Lado B escrito pelo Bernão

Tags:


About the Author

Gosta de personagens alternativos, uma mistura de Oscar Wao, Tom Bombadil e Tempestade que ama literatura, F1 e refrigerante sem gás.



Back to Top ↑
  • Categorias


  • PODCAST DESTAQUE

  • Curta a TdG