Nas Catacumbas da Torre

Published on julho 22nd, 2013 | by Makson Lima

Ghost

Não curto Iron Maiden. Podem me julgar à vontade. Não curto metal capa/espada no geral. Simplesmente não é meu estilo. No entanto, daria um apêndice funcional para estar no próximo show do Iron Maiden em São Paulo e o motivo não é necessariamente o Slayer (que gosto pra cacete, diga-se de passagem), mas sim uma banda sueca que vem destroçando minhas entranhas cada vez mais e mais: estou me referindo ao culto a satã em forma de metal, Ghost.

Apesar da proposta explicitamente satanista (e não me entenda mal, por favor: para mim, cultuar demônios é o mesmo que deuses, então estou fora de ambos os movimentos) e seu país de origem, Ghost não se assemelha em nada a famigeradas bandas de Black Metal nórdicas. Imagino que fãs de Mayhem, Dark Funeral, Marduk  e afins cuspam nas máscaras dos Nameless Ghouls. Explico: o som aqui remete a um Black Sabbath alguns tons abaixo em peso, mas com a mesma empolgação dos primórdios. Nada da sujeira tão característica dos cassetes e dos plays porcamente (e propositadamente) gravados. Esqueça vocais rasgados, esganiçados, com letras difíceis de compreender: o negócio aqui é quase melódico, com uma suavidade que cria um contraste com o que está sendo dito. Ghost por vezes lembra Death, por vezes, pasmem, Pink Floyd. E isso só com os dois discos lançados até o momento – Opus Eponymos, de 2010 e Infestissuman, de 2013.

Imagino que as inspirações do frontman Papa Emeritus II (incrível, eu sei) e seu séquito de cinco compositores encapuzados e devidamente mascarados, sejam inúmeras, já que o estilo da banda mescla muitos sons, décadas e tons. Basta assistir a um dos shows dos caras para se impressionar com o poder visual e teatral ostentado. Não se faz mais esse tipo de coisa no meio, e confesso sentir muita falta. Essa seriedade nas letras (várias delas cantadas em latim, inclusive) e nas vestimentas são de primeira importância na performance de Ghost. Papa Emeritus II, cujo nome real não cabe aqui especular (porque não importa), age como um maestro enquanto de seus cânticos, sua batina negra com crucifixos estilizados de cabeça para baixo, como num verdadeira missa às avessas. Os demais integrantes, sem identidade, firmados em suas posições como criaturas das trevas, compõe o bastião infernal. É espetacular, assombroso e, enquanto assustador, também sedutor.

E é incrível a reação do público às performances, que entoa em bom som letras pesadas como Satan’s Prayer, Year Zero (que evoca abertamente entidades nada amigáveis) e a putrefata e magnífica Ghuleh / Zombie Queen. E eu gostaria de fazer parte desse rebento desgarrado, cegamente tateando as trevas, engatinhado sobre  músicas ruins, sedentos por um som desgraçadamente bom. Quem sabe eles voltem um dia, com um palco próprio, numa apresentação própria, com a atenção que merecem e não das beiradas de sucessos alheios. O Papa do mal e suas assombrações mascaradas já fizeram por merecer.

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About the Author

Além de detestar falar de si mesmo na terceira pessoa, tem certa obsessão pelo fundo do poço cinematográfico. Séries como Silent Hill, Resident Evil, Shin Megami Tensei e Final Fantasy trazem razão para sua existência e acha absurda a internet do "amo/odeio". Recluso, introspectivo, com um pé na sociopatia e com saúde debilitada, não acredita no ser humano como espécie cosmopolita.



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