Nas Catacumbas da Torre

Published on setembro 4th, 2013 | by Makson Lima

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Illbleed

Ah, Dreamcast… Máquina fantástica de sonhos, onde o bizarro encontrou seu lar e o multiplayer com tela dividida, seu ápice (Nintendo 64 meu ovo). Ah, Dreamcast… Entre Shenmue e Resident Evil CODE: Veronica, Power Stone e Toy Commander, MDK2 e Headhunter, havia espaço para todos neste enorme coração de mãe. Mãe esta chamada Sega. E no meio deste balaio enfurecido de genialidade, experimentalismo e diversão, aquele que foi meu jogo favorito durante um bom tempo em minha meninice: Illbleed.

Você talvez nunca tenha ouvido falar – eu sei, o nome é estranho e o jogo é mais ainda, acredite – mas jamais uma mídia fez tanto homenagem a outra, respeitando ambas plenamente. Illbleed é o filme B controlável mais incrível de que se tem notícia. Tosco, hilário, grotesco, difícil, absolutamente original. Aquele que mais se equiparou a ele neste aspecto, e ainda assim, há milhas de distância, foi outro queridinho deste que aqui escreve: Deadly Premonition. Assunto para outro texto, outra semana, claro.

O negócio aqui, agora, é essa obra-prima da bagaceira. Saindo da mesma mente perturbada que nos trouxe o problemático (porém relevante) Blue Stinger, Shinya Nishigaki – que YHVH o tenha – é um sujeito especial. “Minha imaginação é um filme de grande orçamento”, dizia. Verdade. Illbleed é prova contundente. Com uma história absolutamente incrível – o jogo começa num campeonato de recital, imagine – e controles que inovaram o gênero, Illbleed pode não ter sido o sucesso que os executivos da Sega gostariam que fosse, mas seu legado será sempre ostentado por um séquito secreto fervoroso. Tanto, que uma continuação feita por fãs chegou a ser concebida e um grupo de internet continuou com discussões acerca de seus feitos (e ensinamentos, por que não dizer?) por muito tempo.

A trama tem início quando um grupo de amigos, em uma promoção qualquer, ganha ingressos para um parque de diversões recém-inaugurado, Illbleed. O prêmio para sobreviver a todas as atrações? Algo em torno de 100 milhões de dólares. Não suficiente para Eriko, a protagonista de cabelos roxos, com passado traumático, vítima de um pai sádico e doentio, ela resolve ficar de fora da expedição, formada por seus amigos Kevin e Randy. Depois de alguns dias sem notícias da dupla, Eriko resolve partir em busca dos desaparecidos. E é aí que o jogo começa, com aquela trilha bem tenebrosa e característica, remetendo diretamente a um John Carpenter e seu teclado enferrujado, criador e executor de uma das músicas mais famosas da história do terror, aquela que dá início a Halloween.

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A partir daí, o show de horrores tem início. Fun House, de Tobe Hooper, alguém? Para vencer o teatro abandonado, a fazenda de minhocas gigantes, o supermercado assassino, o museu de horrores de Michael Reynolds (o criador do parque) e diversos outros cenários, Eriko precisa confiar, acima de tudo, em seus sentidos. Illbleed não é um jogo de terror que foge dos padrões simplesmente por abordar a temática tão recorrente das obras de Lloyd Kaufman, mas também por trazer controles sem precedentes. No HUD nada discreto, um marcador com informações referentes a visão, olfato, audição e um misterioso sexto sentido. A partir de variações nas batidas de um ECG especial que cruza cada sentido separadamente, é possível alertar-se de seus arredores, descobrindo todo tipo de armadilha pronta para destroçar o personagem. Através de pontos de adrenalina limitadíssimos,desarmá-las é primeira importância, mas aí está a sacada: é impossível dar conta de todas, então você precisa usar de seu instinto (e sua sorte) para descobrir quais são as mais perigosas.

O legal deste método é a total incapacidade de cruzar os cenários sem levar um jato de sangue na cara, tomar um susto de um monstro escondido entre o assoalho, ser mordido por um bolo de casamento assassino ou ser pego de surpresa pelo monstro demente – e fã de baseball – Jimmy (Jason Voorhees total). O que pode rolar também é uma batalha com direito a campo limitado, fuga via helicóptero e litros de sangue após cada tapa na cara, golpe de machado ou chute de boneco de madeira – em um dos momentos mais “QUE DIABOS” do jogo, você precisa se transformar num boneco de madeira, com direito a participação especial de Woody do Toy Story e tudo.

Illbleed é espetacular. Tanto, que nos remete a uma fase perdida no subconsciente onde tudo parecia assombroso, novo e fascinante. E o que te leva a uma sensação dessas nos dias de hoje? Exatamente. Sr. Nishigaki, seja lá onde esteja, saiba que sua obra será sempre perpetuada por dementes como eu, que dão o devido valor ao inusitado e irreverente, além daquela dose um pouco exagerada de sangues e tripas voando pelos ares.

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About the Author

Além de detestar falar de si mesmo na terceira pessoa, tem certa obsessão pelo fundo do poço cinematográfico. Séries como Silent Hill, Resident Evil, Shin Megami Tensei e Final Fantasy trazem razão para sua existência e acha absurda a internet do “amo/odeio”. Recluso, introspectivo, com um pé na sociopatia e com saúde debilitada, não acredita no ser humano como espécie cosmopolita.



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