Filmes

Published on dezembro 21st, 2015 | by Leitor / Ouvinte

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Toda geração tem uma história

Por Thiago Mendanha

“Já vivi tempo suficiente para ver os mesmos olhos em pessoas diferentes. Eu vejo os seus olhos. Eu conheço os seus olhos.”

Com essas palavras sugestivas é que a pirata Maz Kanata, vivida pela ganhadora do Oscar Lupita Nyong’o, narra o spot publicitário de Star Wars: O Despertar da Força para a televisão. É uma mensagem muito poderosa que consegue expressar o que esse filme, o primeiro de uma nova trilogia da franquia, agora sob a propriedade do Waltinho Disney, significa para toda da uma legião de fãs dessa ópera espacial épica, pioneira dos blockbusters nos cinemas. E celebramos com bons olhos, os mesmos olhos de nossos pais, esse despertar tão importante e AWESOME para a cultura pop.

Você lê e ouve muita gente reclamando que Star Wars virou modinha. Vê gente reclamando que esses novos fãs não sabem a diferença entre o Comandante Spock e o Almirante Ackbar. Eu sei que isso é uma armadilha. Mas, como já bem responderam aos mimizentos das interwebs, as pessoas viram que um novo filme de Star Wars vai ser lançado. Se interessaram e foram fazer maratona dos seis longas anteriores para assistirem ao novo lançamento sem ficarem perdidos flutuando no espaço. Essas pessoas se depararam com a filosófica questão de qual é a melhor ordem para assistir aos seis episódios. Foram apresentadas às inúmeras teorias de qual é a ordem mais indicada, mesmo todos sabendo que a ordem correta é IV, V, VI, I, II e III, sem prejuízo do cochilo durante o episódio I. A despeito das trivialidades e preferências, não devemos impor dificuldades para os novos Padawan. Não podemos esquecer que fomos pequenos Padawan antes deles e nossos pais tiveram a paciência e a alegria de compartilhar conosco a experiência deles com o universo de Star Wars. Uma experiência de entretenimento e cultura que foi passada de geração para geração. Histórias que vão se cruzando através de um universo compartilhado. Há uma beleza nesse fenômeno que une o pai e o filho no cinema se divertindo e curtindo algo juntos. O marido que apresenta Star Wars para a esposa. O namorado que apresenta para a namorada. A namorada que apresenta para o namorado. A esposa que apresenta para o marido. O amigo que apresenta a Força para o amigo e por aí vai. E tudo vira uma cadeia que se espalha e torna Star Wars o fenômeno cultural que é, demonstrando realmente uma Força que conecta as pessoas. É interessante pensarmos que nossos pais que têm suas histórias, lutas, batalhas, derrotas e vitórias, e encontraram escape ou até mesmo inspiração na jornada de Luke, Leia, Solo, Chewie, C-3PO e R2-D2, que talvez também foram levados ao cinema pelos nossos avós, anos mais tarde como que por tradição não institucionalizada também nos apresentaram a esse mundo de sabres de luz, Jedi, Sith, androides e naves espaciais que viajam na velocidade da luz atravessando sistemas solares. E agora nós vemos uma nova geração sendo apresentada para esse universo de aventuras que atravessa árvores genealógicas inteiras espalhando Star Wars e o entusiasmo do despertar da Força. Nossos pais viveram seus momentos na História, nós vivemos nosso momento e os novos espectadores viverão o momento deles. Cada um pôde e poderá extrair das jornadas de nossos heróis um paralelo com o estado do mundo em suas respectivas épocas. Star Wars sempre foi uma distopia que aborda a luta contra o totalitarismo, o estado opressor, a jornada do herói, a Luz e a Escuridão, o bem e o mal, que através de uma bela e simples alegoria consegue manter sua relevância na cultura pop mesmo três décadas após o seu surgimento. É claro que vários fatores explicam o grande sucesso dessa que é uma das franquias mais amadas e idolatradas de todos os tempos e em todas as galáxias muito, muito distantes. Os filmes são um marco inquestionável na história do cinema que gerou um impacto cultural sem precedentes. Além de influenciar produções posteriores ocasionando um boom de lançamentos de ficções científicas se passando no espaço, Star Wars também contribuiu significantemente para a evolução dos efeitos especiais. Mesmo quem nunca tenha assistido Star Wars (e, por incrível que pareça e incompreensível que seja, há seres humanos neste planeta que conseguiram essa façanha) com certeza conhece um dos plot twists mais memoráveis, parodiados e referenciados de todos (menção honrosa para Toy Story 2) quando Darth Vader revela para Luke: “Não, eu sou seu pai.” Isso mesmo, você não leu errado. A famosa frase não é “Luke, eu sou seu pai!”, embora na adaptação para o rádio a fala tenha ficado “Não, Luke, eu sou seu pai!”. O raio de alcance de Guerra nas Estrelas, que por motivos de unificação da marca deixou de ser o título no Brasil (para confusão dos fãs old school ou como eles devem preferir, da velha escola) é comparável ao da Estrela da Morte (trocadalho do carilho).

Star Wars in line

Mas, muito além desses elementos de sucesso, temos como um dos aspectos mais fundamentais e relevantes de Star Wars a sua contemporaneidade, de maneira que um grande mérito da saga espacial foi sempre conseguir dialogar com o seu tempo (embora talvez a conversa tenha se perdido um pouco lá pelos episódios I, II e III, há quem tenha curtido o papo). Os primeiros três episódios de Star Wars (que não são o I, II e II) foram recebidos com entusiasmo por uma geração de jovens interessada no espaço, que viveu ou conheceu de perto a corrida espacial. Nos anos setenta, o poderio armamentista do Império Galáctico fazia um paralelo, sutil talvez, com a paranoia comunista da época, e a urgência de livrar a galáxia das garras do imperialismo autoritário remetia à uma geração rebelde e à contracultura pós guerra do Vietnã. Dentro dessa expectativa, um novo Star Wars com certeza também precisa se conectar com o mundo atual e falar à uma nova geração.

Nossos pais assistiram os episódios IV, V e VI (AKA velha trilogia) e vibraram, tornaram-se fãs e entusiastas da saga da Aliança Rebelde contra o Império Galáctico. Como de praxe, o saudosismo desse velho público fez com que os episódios I, II e III (AKA nova trilogia) não fosse tão bem recebidos por ele. Em contrapartida o novo público, sem a ligação emocional e nostálgica com a velha trilogia, foi mais propenso a apreciar um pouco mais a nova trilogia, que é nada mais que uma prequência da velha. Enquanto vivenciamos o hype em torno do lançamento de uma nova NOVA trilogia de Star Wars, que é uma sequência se passando 30 anos depois da velha trilogia, observamos esse fenômeno que atravessa gerações que compartilham de uma história em comum: a luta contra o lado Sombrio da Força. E enquanto para os nossos velhos o lado Sombrio da Força fazia um paralelo com o seu tempo e contra o que eles precisavam se opor, também precisamos conseguir entender e traçar um paralelo com o nosso tempo e contra o que precisamos lutar, nos rebelar e resistir. Porque uma coisa com certeza não mudou, e o conselho do Mestre Yoda é tão perspicaz quanto o foi antes: “Em um lugar escuro nos encontramos, e um pouco mais de conhecimento ilumina nosso caminho”.

star wars pai e filho2Os heróis do passado não podem continuar sendo os protagonistas de uma nova saga de Star Wars. Han Solo, Chewie, Leia, Luke, C-3PO e R2-D2 são como nossos pais. Irão nos acompanhar nessa nova jornada apoiando e nos ensinando que a história que eles viveram foi real. As batalhas que lutaram aconteceram. Eles estão aqui para nos mostrar que o que ouvimos falar não é apenas lenda. “O Lado Sombrio. Os Jedi. São reais.” Estão aqui para nos lembrar que um novo Hittler pode surgir. Que um novo Estado opressor pode se instaurar. E isso pode acontecer porque a nova geração ignora o passado e não busca o conhecimento necessário para se posicionar no lado da Luz enquanto que os que caíram nas sombras não se esqueceram da História. Essa geração foi criada para fazer só uma coisa. Mas não tem nada pelo que lutar. É uma geração que precisa responder às perguntas: Quem somos nós? Qual é a nova ameaça? Qual a nova viagem que deve ser feita? Em dias em que é possível ouvir jovens que pedem o retorno de um regime militar no Brasil, em que políticos estão criando verdadeiras cruzadas contra os LGBT, e a bancada evangélica ignora completamente a laicidade do Estado, em tempos em que as mulheres ainda precisam investir arduamente na luta feminista, em que o racismo ainda é um mal que insiste em existir em nossa sociedade e a corrupção e a escalada imoral pelo poder são uma epidemia no governo, é realmente um grande acerto termos uma mulher e um negro como protagonistas de uma franquia de tão grande influência quanto Star Wars. É o momento de acompanharmos novos heróis que respeitam as vitórias daqueles que lutaram antes deles. Rey e Finn representam e falam com uma geração que precisa se conhecer, aprender com o passado e e acreditar nos seus heróis, e encarar as lutas de seu tempo. Esse novo Star Wars representa uma geração que precisa romper definitivamente com preconceitos de gênero e cor, continuar lutando contra a corrupção e a sedução do Lado Sombrio da Força, combater a opressão e o ódio. E, principalmente, manter os laços e os conselhos vívidos de seus mestres, passando os mesmos valores e ensinamentos para os próximos Padawan.

Cada geração tem seu Star Wars, cada geração tem sua história. Houve um despertar. Você sentiu? A Força está chamando por você. Deixe-a despertar, viva a sua história e guarde o mesmo olhar daqueles que estão no lado Iluminado da Força, pois essa geração agora tem o Star Wars que precisava.

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