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Published on dezembro 29th, 2015 | by Thiérri Parmigiani

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Uma aula de roteiro com Mark Waid

Mark Waid é um dos maiores roteiristas de quadrinhos de todos os tempos. Quando vi que ele era um dos convidados da CCXP, pulei de alegria. Minha meta no evento desse ano era tirar uma foto, dar um beijo nele e autografar meu Demolidor escrito por ele. (Completei 2 das 3 missões e só não dei o beijo porque fiquei com vergonha da namorada dele que estava do lado)

Por sorte, a MasterClass dele estava marcada para a quinta, o único dia que eu poderia ir à CCXP. Auditório Ultra bem cheio para a aula do tio Waid.

O “curso” foi dividido em 3 módulos que foram do básico ao avançado:

Básico

Nessa parte, que não durou 5 minutos, Waid apresentou os conceito básico de uma história em quadrinhos. Coisa simples como diferenças de tipos de balões e quadros.

Intermediário

Este módulo apresentou os conceitos de um roteiro. Algumas dicas básicas do que deve conter uma página de roteiro e algumas dicas de economia de narrativa. Foi bacana ver todo o processo de criação de uma página. Alguns slides mostravam desde o roteiro até a página finalizada.

Avançado

Depois de apresentar toda a teoria, Waid se dedicou a mostrar as aplicações práticas. Uma chuva de exemplos de páginas e HQs. Sem medo de apontar dedos, apresentou uma série de péssimos exemplos aplicados em quadrinhos da Marvel, DC e até um do Mortal Kombat. Nessa parte ele também falou um pouco do processo criativo e de técnicas para aumentar o rendimento durante o trabalho.

Também falou da diferença entre mídias e sobre a importância de fazer roteiros de HQs que não enrolem demais o leitor. Para isso ele citou o filme Cães de Aluguel, que começa com um debate sobre like a Virgin da Madonna. Apesar de ter sido feito de forma brilhante e ter funcionado muito bem no cinema, aquilo jamais seria aplicado em uma HQ, pois você não pode gastar 5 páginas em algo que não contribuirá diretamente para a história. Em diversos pontos da aula, ele explicava uma maneira de falar da economia narrativa (falar o máximo com o leitor usando a menor quantidade de quadros ou falas).

Outra coisa legal foi quando falou sobre a importância em fazer quadrinhos mais inclusivos e que, autores e roteiristas devem se preocupar constantemente em apresentar uma variedade étnica em suas histórias.  Citou que uma história (não lembro qual) estava passando por uma recolorização e que ele pediu que alguns bonecos fossem transformados em negros e latinos, pois ele não teve o cuidado de fazer daquele jeito na época em que escreveu.

Também comentou sobre a pressão dos produtores de TV em manter os personagens sempre simpáticos e que isso faz com que ele não tenha a menor vontade de roteirizar séries. Lembrou que essa imposição é uma besteira e exemplificou como Walter White não ficou marcado pelo seu carisma e sim por suas escolhas.

O que levo da Masterclass?

Não é possível mensurar o privilégio de se ter uma aula de roteiro com um mestre como Mark Waid. Mesmo não tendo a pretensão de me tornar um roteirista de HQs, algumas lições que aprendi ali eu levarei para a vida.

Bloqueio criativo: Por algum motivo ele falou sobre o bloqueio criativo e já estou aplicando isso na minha vida. Segundo ele, o bloqueio criativo é, muitas vezes, fruto de alguma decisão errada. Se você estava fluindo bem e do nada travou, não se conforme com esse bloqueio. Olhe para trás e veja qual rumo você tomou antes deste bloqueio. Muitas vezes vale jogar parte do trabalho fora e retomar daquele ponto do que insistir onde travou. Esse apego ao que foi feito pode ser prejudicial. Não é só porque algo foi feito que tenha sido bem feito.

A inspiração vem de dentro: Perguntado sobre o seu dom em transformar personagens medianos em grande personagens através de seus roteiros, Waid contou o segredo: tentar ver o mundo com os olhos do personagem. Parece ironia quando a gente fala de um cara que escreveu o Demolidor, mas ele contou que se perguntava ao longo do dia “Como Matt Murdock ‘veria’ isso com os sentidos dele?” ou quando estava impaciente refletia que “Se você fosse superveloz, você seria super-impaciente”.

Demorei para escrever esse texto pois queria finalizar com um arquivo para a apresentação em ppt que foi utilizada na aula, mas o Mark Waid não cedeu o arquivo por conter alguns pontos e exemplos de trabalhos de outros artistas e que aquilo, utilizado fora do contexto, poderia ser mal interpretado.

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About the Author

Gosta de criar analogias absurdas. Apaixonado por quadrinhos e cinema apesar de não conseguir decorar o nome de mais de uma dúzia de diretores, escritores e desenhistas. Acredita que o Magneto é o Jesus dos mutantes. Tem só 60kg, mas merecia pesar uns 150kg.



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