Nas Catacumbas da Torre

Published on julho 29th, 2013 | by Makson Lima

Zombies Ate My Neighbors

O meio dos anos noventa foi um período especial demais para mim. Não só porque estava descobrindo que tipo de música eu gostava de verdade (Fatal Fury tem influência pesada nisso), como também acentuando meu gosto pelo bizarro nos filmes (meu primeiro Hellraiser foi com nove anos!). Mas nos videogames a coisa tomava forma de maneira especial. O Super Nintendo reinava absoluto naquela casa térrea da Rua Araraquara e, por mais que Super Mario World e Super Street Fighter 2 fossem os maiorais (porque eram também os únicos cartuchos que tinha no momento), as aguardadas idas às locadoras de sexta-feira depois do colégio eram as que traziam as melhores surpresas possíveis. E foi numa dessas surpresas que me deparei com um jogo esquisito, com um nome que mal conseguia pronunciar e que sempre estava alugado. Mas não naquele fatídico dia chuvoso de inverno.

Zombies Ate My Neighbors foi uma explosão de catarse para um moleque aficionado por filmes de terror e desenhos animados como eu. Lembro perfeitamente que na época tinha ganhado TV a cabo de presente e estava fissurado nesses seriados infantilóides sobrenaturais, tipo Eerie Indiana e Goosebumps e naquele desenho da Fox Kids, Mighty Max. Jogar com aquele mancebo com cabelo espetado (que inclusive me lembrava o Max) e óculos 3D iguais aos que eu tinha da revista Dinossauros, era das coisas mais divertidas que eu já tinha feito até então. E quando meu irmão jogava comigo, mesmo reclamando por ser a menininha sem graça de boné, era o pináculo da alegria pré-adolescente. Quando eu ouvia aquela risada maquiavélica assim que apertava start, era como se embarcasse num trem fantasma daqueles parques de diversões bem decrépitos de fim de temporada. Nada poderia ser mais legal que aquilo.

A primeira fase já mostrava bem os esquemas por trás dos objetivos, sem explicações, tutoriais nem nada do tipo. Tempos saudosos. É claro que você deveria salvar a velhinha cega e a mulher com o carrinho de bebê, como também era evidentemente que os zumbis eram os inimigos e pulverizá-los com sua arminha d´água era a melhor opção. Eram objetivos que pareciam ser assimilados de imediato até mesmo para alguém de dez anos. Admito que as fases eram muitas, a dificuldade era acentuada e a progressão desta um tanto quanto cruel, mas não me importava jogar a mesma fase dez, quinze, mil vezes: eu só queria curtir aquelas músicas tenebrosas enquanto que divertidas e confrontar um Jason com sua serra elétrica num labirinto verde sem fim.

Ainda hoje me espanta a variedade assombrosa de monstruosidades que fazem parte do panteão desta obra-prima da era mais próspera da LucasArts: lobisomens uivavam e babavam pelos sobreviventes; cientistas loucos montavam suas próprias criaturas em laboratórios secretos; seres mutantes radioativos se esgueiravam de poças de meleca verde; bebês gigantes destruíam cidades (como eu tinha medo daquele bebê gigante!); pequenos psicopatas com machados horrorizavam super-mercados e a lista se estende por parágrafos e mais parágrafos.

Tão surpreendente quanto, eram os cenários: bem coloridos, com tonalidades parecidas com aqueles filmes de ficção científica de baixo orçamento ou qualquer coisa saída da mente de Lloyd Kaufmann. Sua variedade também surpreendia, indo de triviais vizinhanças de cidades que todos conhecemos a pirâmides, naves alienígenas, castelos medievais e casas mal-assombradas. Lembro de como era legal explorar cada gaveta, vaso, armário e até caixão atrás de itens úteis para minha sobrevivência, como kits de primeiros socorros, poções que me transformavam em monstros roxos enormes ou chaves para abrir locais secretos. E o arsenal saciava minha fome juvenil: era tão divertido usar o cortador de grama para pulverizar ervas daninhas mutantes quanto lança-chamas em hordas de criaturas do pântano.

Era incrível essa época de descoberta nas locadoras, porque mesmo com as revistas especializadas, as surpresas eram por minuto. Zumbis (como eu sempre o chamei carinhosamente) certamente figura entre minhas memórias mais afáveis de cooperação proveitosa com meu irmão que na época estava aprendendo a escrever e com todo esse meu fascínio emergente, em plena ebulição, por monstros e coisas esquisitas. Nas catacumbas da torre, os vizinhos já foram digeridos pelos mortos-vivos por tantas vezes que não vejo solução para o problema. Não que haja problema nisso.

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About the Author

Além de detestar falar de si mesmo na terceira pessoa, tem certa obsessão pelo fundo do poço cinematográfico. Séries como Silent Hill, Resident Evil, Shin Megami Tensei e Final Fantasy trazem razão para sua existência e acha absurda a internet do "amo/odeio". Recluso, introspectivo, com um pé na sociopatia e com saúde debilitada, não acredita no ser humano como espécie cosmopolita.



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